Uma reflexão sobre ancestralidade, escola, raça, classe social e mobilidade familiar no Brasil.
Há histórias que a gente vive primeiro e só depois aprende a nomear.
Durante muito tempo, olhei para minha trajetória familiar como uma sequência de esforço, trabalho, cuidado e mudança de vida. Mas, ao estudar Educação, Cultura e Diversidade, comecei a compreender que minha história não é apenas individual. Ela é também social, racial, territorial e histórica.
Sou uma mulher negra, com orgulho. Venho de uma família cujas gerações anteriores viveram em condições muito mais difíceis. Meus pais e avós vieram de um contexto de pouca estrutura, poucos recursos e poucas oportunidades. Não vieram de herança, proteção econômica ou estabilidade. Vieram de sobrevivência.
Hoje, minha realidade é diferente. Vivo em boas condições, tenho alimento em abundância, casa, segurança e acesso a escolhas que muitas pessoas no Brasil ainda não têm. Meu filho sempre estudou em bons colégios particulares, diferente de mim e do pai dele, que viemos da escola pública.
Reconhecer isso não apaga a minha negritude. Também não apaga a minha origem. Pelo contrário:
Me obriga a olhar para minha história com mais consciência.
O Brasil é um país profundamente desigual. E essa desigualdade não aparece apenas na renda. Ela aparece na escola, no território, na cor da pele, no acesso à tecnologia, no tipo de trabalho, no diploma, na segurança e até na expectativa de futuro.

Segundo o Censo 2022 do IBGE, 45,3% da população brasileira se declarou parda e 10,2% se declarou preta. Ou seja, pretos e pardos formam a maior parte da população do país. Mas ser maioria numérica não significa ter igualdade de acesso.
Na educação, por exemplo, os dados mostram avanços, mas também permanências duras. O Censo 2022 revelou que a proporção de pessoas pretas com 25 anos ou mais e ensino superior completo cresceu de 2,1% em 2000 para 11,7% em 2022; entre pessoas pardas, passou de 2,4% para 12,3%. Ainda assim, a população branca chegou a 25,8% com ensino superior completo — mais que o dobro do percentual de pretos e pardos.
Isso mostra uma coisa importante: a população negra avançou, mas avançou carregando uma distância histórica.
A desigualdade também aparece quando olhamos para a juventude. Em 2024, entre jovens de 18 a 24 anos, 37,6% das pessoas brancas estavam estudando; entre pessoas pretas ou pardas, esse percentual era de 27,1%. Na etapa ideal, ou seja, cursando o ensino superior na idade esperada, estavam 37,4% dos jovens brancos e apenas 20,6% dos jovens pretos ou pardos.
Esses números ajudam a explicar algo que muitas famílias negras sentem, mas nem sempre conseguem dizer: estudar, para nós, muitas vezes não é apenas estudar. É atravessar uma estrutura.
Quando uma família negra consegue colocar um filho em uma escola melhor, oferecer livros, internet, alimentação, segurança emocional e continuidade nos estudos, ela não está apenas “dando educação”. Ela está tentando interromper um ciclo.
A Sociologia da Educação ajuda a compreender isso. Durkheim via a educação como um processo de socialização, ou seja, uma forma pela qual a sociedade transmite valores, normas e modos de viver às novas gerações. Marx, por outro lado, ajuda a perceber que a escola também pode reproduzir desigualdades quando serve aos interesses dos grupos dominantes. Weber acrescenta outra camada: diplomas, certificados e escolas prestigiadas funcionam como sinais de status social.
Traduzindo: a escola não é neutra.
Ela pode abrir portas, mas também pode revelar quem já chegou com vantagem. Uma criança que nasce em uma família com renda, livros, tempo, internet, transporte, escola particular e adultos escolarizados começa a corrida em outro ponto. Uma criança que nasce em família pobre, em território vulnerável, sem estabilidade material e sem rede de apoio começa carregando obstáculos que não escolheu.
Por isso, quando olho para minha família, eu não vejo apenas mérito individual. Vejo mobilidade social intergeracional.
Meus avós vieram de uma realidade de escassez. Meus pais enfrentaram outra camada dessa travessia. A minha geração começou a experimentar mais estabilidade. Meu filho já viveu uma condição educacional melhor. Isso não aconteceu porque a estrutura deixou de ser desigual. Aconteceu porque, dentro de uma estrutura desigual, minha família conseguiu produzir deslocamento.
Mas existe uma questão delicada: posso me reconhecer privilegiada sendo uma mulher negra?
Sim, desde que eu entenda o privilégio de forma responsável.
Existe o privilégio absoluto, que é o lugar histórico de quem sempre esteve no centro do poder racial, econômico e simbólico. Mas existe também o privilégio relativo: quando uma pessoa continua atravessada por uma opressão — como o racismo —, mas possui melhores condições materiais, educacionais ou familiares do que grande parte da população.
Eu posso ser uma mulher negra e ainda assim reconhecer que hoje tenho acessos que muitos brasileiros não têm. Isso não diminui o racismo. Apenas torna minha consciência mais honesta.
É por isso que a educação precisa ser vista como direito, não como prêmio.
Quando penso nos meus avós, não consigo romantizar a pobreza. Pobreza não é beleza, pureza ou virtude. Pobreza é privação. É limite. É falta de escolha. É cansaço acumulado no corpo. É ter menos tempo para sonhar porque a urgência da sobrevivência ocupa quase tudo.
Isso significa que meus ancestrais talvez não tenham tido diploma, mas tiveram saberes. Talvez não tenham frequentado boas escolas, mas ensinaram caminhos. Também não acumularam bens, mas sustentaram uma travessia possível.
Eu não vim do nada. Vim de gente que teve pouco, resistiu muito e, de algum modo, abriu passagem.
Hoje, quando estudo, escrevo, cuido da minha imagem, educo meu filho e construo minha presença digital, eu continuo essa travessia com outras ferramentas. Meus avós talvez tenham tido o corpo como principal instrumento de sobrevivência. Meus pais, o trabalho. Eu tenho também a palavra, a imagem, o estudo e a consciência histórica.
E isso muda tudo.
Talvez a maior beleza da educação seja esta: ela não serve apenas para “subir na vida”. Ela serve para compreender a vida. Serve para olhar para trás sem vergonha, para olhar para o presente sem ingenuidade e para olhar para o futuro com mais responsabilidade.
Minha linhagem não começa em mim. Mas, a partir de mim, ela pode ser narrada de outro modo.
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