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Blindar é retroceder: por que a PEC da Blindagem nos aproxima dos fantasmas da ditadura

A democracia não sobrevive a privilégios

Quando ouço falar em PEC da Blindagem, imediatamente penso no peso da nossa história recente. O Brasil viveu 21 anos de ditadura militar, um regime em que os poderosos se protegiam através de leis de exceção, censura e violência institucionalizada. Quem governava estava acima da crítica, acima da Justiça, acima do povo.

E o que vemos agora é uma tentativa disfarçada de reeditar essa lógica: blindar parlamentares para que só possam ser julgados se eles próprios autorizarem. Isso é mais do que um privilégio: é a institucionalização da impunidade.


O passado não pode ser repetido

Durante a ditadura, tivemos a Lei da Anistia de 1979, que serviu como instrumento para apagar crimes cometidos por agentes do Estado. Torturadores, repressores e assassinos nunca foram julgados. Ficaram protegidos sob o manto de uma “reconciliação nacional” que, na prática, foi um pacto de silêncio e esquecimento.

O resultado? Décadas de injustiça, famílias sem resposta, e um país que até hoje carrega cicatrizes abertas. A blindagem de ontem nos custou caro, e é exatamente por isso que precisamos ter coragem de dizer não a qualquer blindagem que tente ressurgir hoje.


Democracia exige transparência, não escudos

Aceitar a PEC da Blindagem seria dizer que aprendemos nada com o passado. Seria legitimar a ideia de que certos cargos conferem imunidade quase monárquica. É trocar a democracia pela autopreservação de uma elite política.

Não podemos esquecer que ditaduras começam justamente assim: com pequenas concessões à impunidade, com leis que parecem técnicas, mas que, na prática, corroem a essência da igualdade diante da lei.


A memória como antídoto

A memória histórica não é luxo intelectual, é ferramenta de sobrevivência. O Brasil já viveu o peso de um regime em que os poderosos nunca respondiam por seus atos. E pagamos caro por ter aceitado a anistia como solução mágica para cicatrizes profundas.

Agora, diante de uma PEC absurda, precisamos lembrar que democracia não se protege com escudos, mas com transparência, responsabilização e justiça.


Sem blindagem, sem esquecimento

Eu sou contra a PEC da Blindagem porque ela nos aproxima demais dos erros da ditadura. Ela institucionaliza a desigualdade jurídica, perpetua privilégios e repete o pacto de silêncio que marcou nossa transição democrática.

Se aceitarmos essa blindagem, estaremos dizendo ao futuro que o Brasil não aprendeu nada com o passado. E eu me recuso a vestir esse esquecimento. Ditadura nunca mais. Blindagem, também não.