
Durante muito tempo, acostumei-me a suportar. S foram entrando na minha rotina como se fossem consequências inevitáveis de ser mulher.
Eu me adaptei aos sintomas quando deveria tê-los investigado e tratado com prioridade.
Adiei a cirurgia por anos. Havia medo, responsabilidades e a esperança de que ainda fosse possível continuar. Mas o corpo não deixa de adoecer porque aprendemos a funcionar com dor.
Quando finalmente fui operada, foi necessária uma histerectomia abdominal, cirurgia em que o útero é retirado por meio de uma incisão no abdômen. No meu caso, também foram removidas as trompas, enquanto os ovários foram preservados. Além disso, foi colocado um sling urinário, uma pequena faixa posicionada sob a uretra para oferecer sustentação e reduzir as perdas involuntárias de urina, especialmente ao tossir, espirrar, rir ou realizar algum esforço. Chega de constrangimento!
Não posso afirmar, mas hoje reconheço que adiar o cuidado permitiu que o problema continuasse avançando e comprometendo minha qualidade de vida.
Antes da operação, meu cirurgião me perguntou:
“Como você aguenta tanta dor, coitada?”
Nem eu sabia o quanto havia suportado. Eu havia normalizado o sofrimento a ponto de já não conseguir medi-lo.
É por isso que escrevo este relato: ser forte não pode significar abandonar a si mesma.
Os sinais que não devemos normalizar
Cada mulher tem uma história clínica diferente, mas alguns sintomas não devem ser tratados como destino feminino:
- sangramento intenso ou prolongado;
- dor pélvica frequente;
- dor durante ou depois da relação sexual;
- pressão no baixo ventre;
- perdas de urina ao tossir, rir, caminhar ou fazer esforço;
- qualquer sintoma que interfira na intimidade, na mobilidade ou na rotina.
Sentir vergonha, medo ou insegurança é compreensível. Permanecer em silêncio, porém, pode prolongar um sofrimento que precisa de avaliação profissional.
Recuperar-se é respeitar o corpo
Escrevo ainda no início da recuperação. Ando devagar, sinto dores mas observo pequenas melhoras. Pergunto-me como será reencontrar o prazer e como vou me reconhecer com a cicatriz. Isso não é “pura vaidade”. Primeiro, meu corpo precisa cicatrizar. A retomada da vida sexual deverá acontecer somente com liberação médica, sem pressa e sem aceitar novamente a dor como normal.
Enquanto me recupero, preservo pequenos rituais que me fazem sentir presente
Penteio os cabelos, uso batom, rímel, brincos delicados, perfume e hidratante. Também me alimento bem, como frutas, respeito o repouso e aproveito esse período para estudar. O cuidado exterior não substitui o tratamento; ele me ajuda a continuar reconhecendo a mulher que existe para além da doença.
Esse reencontro também se relaciona com outra reflexão que estou construindo: Letramento racial: como estudar História transformou a maneira como vejo minha ancestralidade e a mim mesma
Mulher, não espere o corpo gritar
Se você vem adiando uma consulta, escondendo perdas de urina, suportando dor durante o sexo ou considerando normal sangrar e sofrer, procure avaliação médica. Não abandone a si mesma.
Colocar a saúde em primeiro lugar não é egoísmo. Não diminui o amor pela família, não nos torna fracas e não exige que estejamos sem medo. Significa reconhecer que nossa vida também merece tempo, atenção e cuidado.
Ainda estou me recuperando, mas uma decisão já está tomada: não quero voltar a transformar sofrimento em rotina.
Mulher, cuide-se. Você não precisa esperar que a dor se torne insuportável para reconhecer que merece ajuda.
Leia também: Dia da Mulher: maternidade, identidade e o reencontro comigo mesma.
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