Letramento racial


  • Mulher identificada como pertencente à nação Mina, 1864.
  • Mulher na condição de escrava de ganho vendedora, 1864-1865.
  • Quintandeiras.
  • Mulheres vendendo suas mercadorias, Rio de Janeiro. 1826.
  • A Redenção de Cam, Modesto Brocos, 1895.
  • Pessoas escravizadas na colheita de café.
  • Homem escravizado sendo inspecionado para venda.
  • Quilombo de Palmares representado em mapa holandês, 1647.
  • Comércio feito por africanos e seus descendentes em Salvador, 1865.
  • Muitos africanos e seus descendentes exerceram atividades na política
  • Família Caraíba
  • Índios Bororo.
  • carta de pero vaz caminha

Esses traços não foram rejeitados porque possuíssem alguma inferioridade natural. Foram colocados em posições inferiores dentro de sistemas estéticos e científicos construídos em sociedades coloniais e escravistas.

O padrão de beleza não nasce espontaneamente. Ele é produzido por imagens, instituições, discursos, mercados e relações de poder. Aquilo que uma sociedade aprende a chamar de bonito, profissional, delicado, inteligente ou confiável possui história.

Essa descoberta foi profundamente libertadora para mim.

Muitas mulheres negras assim como eu, aprenderam a observar a própria imagem a partir de critérios que não foram criados para reconhecê-las. Não era apenas uma questão de gosto individual. Existia uma educação visual repetida pela publicidade, pela televisão, pela moda, pelos livros, pelo ambiente profissional e até pelas relações cotidianas.

Quando determinados rostos aparecem sempre associados ao prestígio e outros aparecem como problema, excesso, exotismo ou ausência, o olhar social é treinado. E, muitas vezes, esse olhar passa a viver dentro de nós.

Eu também precisei reaprender a me ver.

Passei a admirar com mais consciência a cor da minha pele, o formato do meu nariz, a presença dos meus lábios e o conjunto do meu fenótipo. Não porque uma frase motivacional tenha me convencido de que eu deveria me achar bonita, mas porque o conhecimento me mostrou que a rejeição desses traços foi historicamente produzida.

Se a desvalorização foi ensinada, ela também pode ser questionada.

Durante muito tempo, aprendi a imaginar a história do Brasil como uma narrativa iniciada em 1500. Antes da chegada dos portugueses, parecia existir apenas uma espécie de cenário vazio, habitado por pessoas sem história, esperando que alguém viesse nomear a terra, registrar os acontecimentos e dar início ao país.

Estudar as primeiras populações do território brasileiro desmontou essa imagem.

Muito antes da chegada europeia, diferentes povos ocupavam estas terras, produziam conhecimentos, organizavam relações sociais, transformavam o ambiente, criavam tecnologias, cultivavam alimentos, estabeleciam redes de troca e desenvolviam formas próprias de interpretar a vida. Não existia um único “índio”, no singular, mas uma enorme diversidade de povos, línguas, cosmologias e experiências.

O próprio uso de uma palavra genérica para reunir populações tão distintas revela uma operação do olhar colonial: reduzir a diversidade para tornar o outro mais fácil de classificar, administrar e dominar.

O Censo 2022 identificou quase 1,7 milhão de indígenas no Brasil. Divulgações posteriores do IBGE registraram centenas de etnias, povos ou grupos indígenas e uma grande diversidade linguística. Esses dados não falam apenas de quantidade. Eles desmentem a imagem de um povo único, pertencente exclusivamente ao passado.

Povos indígenas não são vestígios de uma sociedade que desapareceu. São sujeitos do presente, com identidades dinâmicas, direitos, lutas políticas, produção intelectual e diferentes formas de participar da vida contemporânea.

Essa compreensão também me ensinou a desconfiar de uma pergunta comum: “Se usa celular, estuda na universidade ou vive na cidade, ainda é indígena?” A pergunta parte da ideia de que apenas os povos não brancos precisariam permanecer congelados no passado para provar sua autenticidade. Ninguém exige que uma pessoa europeia abandone a tecnologia para continuar sendo europeia.

Identidade cultural não significa imobilidade. Culturas vivas se transformam, negociam, incorporam elementos e preservam continuidades.

As fontes também carregam o olhar de quem escreveu

Como estudante de História e Jornalismo, aprendi que uma fonte não é uma janela neutra para o passado.

A Carta de Pero Vaz de Caminha, os relatos de viajantes, missionários, administradores e cronistas são documentos valiosos. Mas foram escritos a partir de posições específicas. Seus autores observavam o território e seus habitantes com referências cristãs, europeias, mercantis e coloniais. Descreviam aquilo que viam, mas também projetavam expectativas, julgamentos e interesses sobre o que viam.

Por isso, ler uma fonte histórica não significa apenas perguntar “o que ela conta?”. É necessário perguntar também:

  • Quem escreveu?
  • Para quem escreveu?
  • Com qual finalidade?
  • O que escolheu mostrar?
  • O que não conseguiu compreender?
  • Quem aparece apenas descrito e quem possui o direito de falar?

Essa é uma aprendizagem fundamental para mim porque une diretamente História e Jornalismo. Em ambas as áreas, selecionar palavras, enquadrar acontecimentos e escolher fontes produz sentidos. Nenhuma narrativa contém a realidade inteira. Toda narrativa ilumina determinadas partes e pode deixar outras na sombra.

Quando os colonizadores utilizaram palavras como “bárbaros”, “selvagens”, “gentios”, “tapuias” ou “negros da terra”, eles não estavam apenas descrevendo pessoas. Estavam construindo categorias que ajudavam a justificar catequização, guerra, aprisionamento, escravização e tomada de territórios.

Nomear nunca é um gesto inteiramente inocente quando existe uma relação desigual de poder.

Da imagem da passividade ao reconhecimento da agência indígena

Outra transformação importante foi deixar de enxergar os povos indígenas apenas como vítimas imóveis da conquista.

Reconhecer sua agência histórica não significa diminuir a violência colonial nem responsabilizar os próprios povos pelas violações sofridas. Significa compreender que eles tomaram decisões, formularam estratégias, estabeleceram alianças, romperam acordos, migraram, negociaram, enfrentaram inimigos e interpretaram as mudanças a partir de seus próprios interesses.

Os estudos de historiadores como John Manuel Monteiro foram fundamentais para retirar os indígenas das margens da narrativa e reconhecê-los como sujeitos históricos. Essa mudança parece simples, mas altera toda a compreensão do Brasil colonial.

Quando uma guerra é narrada apenas pelo colonizador, a resistência pode aparecer como desordem. Quando mudamos a pergunta, percebemos que muitas populações estavam defendendo território, autonomia, parentesco e formas de vida.

Até a expressão “Guerra dos Bárbaros” precisa ser interrogada. Bárbaros para quem? Quem possuía o poder de dar nome ao conflito? Que violências desaparecem quando a resistência do outro é apresentada como brutalidade?

O estudo me ensinou que a historiografia não consiste apenas em acumular fatos. Ela também revisa as perguntas feitas ao passado e modifica o lugar ocupado por diferentes sujeitos dentro da narrativa.

A África não começa com a escravidão

Se os povos originários foram frequentemente apresentados como se não tivessem história antes de 1500, o continente africano muitas vezes me foi apresentado como se sua história começasse no tráfico atlântico.

Durante anos, a África apareceu nos conteúdos escolares quase sempre ligada à escravidão. Falava-se de pessoas africanas quando elas já estavam capturadas, embarcadas, vendidas ou submetidas ao trabalho forçado nas Américas. Pouco se dizia sobre as sociedades às quais pertenciam, as línguas que falavam, os sistemas políticos que conheciam, suas relações comerciais, tecnologias, filosofias, espiritualidades, artes e formas de produzir conhecimento.

Essa narrativa provoca uma distorção profunda: transforma pessoas que possuíam histórias em corpos escravizados e faz parecer que a escravidão era sua identidade.

Mas ninguém nasce escravo. Pessoas foram escravizadas.

A diferença entre as duas expressões é ética, histórica e política. A palavra “escravo” pode fazer a condição imposta parecer uma essência. “Pessoa escravizada” evidencia que houve uma ação, um sistema e agentes responsáveis por retirar sua liberdade.

Estudar a história africana me obrigou a ampliar a imagem que eu mesma havia recebido do continente. Não existe uma África única e homogênea. Existem muitas Áfricas, formadas por sociedades distintas, temporalidades próprias e enorme diversidade cultural.

Também compreendi que as histórias indígenas e africanas não podem ser tratadas como se fossem iguais. Os povos originários sofreram invasão territorial, guerras, escravização, epidemias, deslocamentos e políticas de assimilação em suas próprias terras. Milhões de africanos foram retirados de diferentes regiões do continente e lançados à força na diáspora atlântica. São processos históricos distintos, embora ambos tenham sido submetidos a narrativas coloniais que tentaram desumanizar, homogeneizar e silenciar.

A diáspora não transportou apenas corpos

O tráfico atlântico promoveu uma ruptura brutal. Famílias foram separadas, nomes foram apagados e pessoas de diferentes povos foram submetidas a um sistema construído para transformá-las em propriedade.

Ainda assim, a diáspora não transportou apenas força de trabalho. Com as pessoas viajaram memórias, técnicas, ritmos, alimentos, idiomas, crenças, maneiras de cuidar, conhecimentos sobre o corpo, formas de organização e modos de compreender o mundo.

Esses saberes não chegaram intactos, como objetos guardados em uma caixa. Foram reconstruídos em condições extremas, misturados, ressignificados e transmitidos por diferentes caminhos. A cultura afro-brasileira nasceu também dessa capacidade de criar continuidade em meio à ruptura.

Por isso, ancestralidade não significa imaginar um passado puro, imóvel e perfeitamente recuperável. Para mim, significa reconhecer que existo dentro de uma continuidade histórica que tentaram interromper, mas que encontrou maneiras de permanecer.

Eu não conheço ainda todos os nomes, lugares e pertencimentos étnicos que formaram minha genealogia. Não preciso inventar uma origem específica para afirmar minha ligação com a história negra e africana. O que posso afirmar com responsabilidade é que minha existência como mulher negra brasileira carrega as marcas de processos coletivos anteriores a mim.

Minha ancestralidade não é uma fantasia sobre o passado. É uma pergunta séria sobre as pessoas, os saberes e as lutas que tornaram minha presença possível.

Quando o conhecimento mudou o meu espelho

Foi nesse ponto que a disciplina deixou de ser apenas conteúdo acadêmico.

Ao compreender como povos inteiros foram descritos a partir do olhar de quem desejava dominá-los, comecei a pensar na forma como os traços negros também foram classificados ao longo da história.

Minha autoestima ganhou raízes quando deixou de depender apenas da aprovação do espelho social. Ela passou a se apoiar na compreensão de que meu rosto não é um erro diante de um padrão. Ele é parte de uma história humana, familiar e coletiva que merece ser conhecida com dignidade.

Letramento racial também é empoderamento

Letramento racial é a capacidade de perceber como o racismo organiza representações, oportunidades, relações e expectativas, mesmo quando não aparece de maneira explícita. É aprender a reconhecer os mecanismos que transformam uma preferência aparentemente pessoal em repetição de uma hierarquia social.

Antes de desenvolver essa consciência, eu poderia interpretar certas inseguranças apenas como problemas individuais: baixa autoestima, falta de confiança ou insatisfação com a aparência. O letramento racial não elimina a dimensão pessoal, mas acrescenta uma pergunta indispensável: que parte desse desconforto foi produzida por uma sociedade que ensinou pessoas negras a se compararem com um modelo colocado como universal?

Para mim, esse conhecimento trouxe empoderamento porque devolveu contexto ao que antes parecia defeito.

Empoderar-me não significou tornar-me invulnerável nem acreditar que o estudo apaga imediatamente anos de condicionamento. Significou adquirir linguagem para identificar o que acontece, consciência para não aceitar toda avaliação como verdade e autonomia para construir uma relação mais justa comigo mesma.

O conhecimento não mudou os meus traços. Mudou o valor que aprendi a atribuir a eles.

História e Jornalismo mudaram minha responsabilidade com a palavra

Estudar História ensina a desconfiar de narrativas únicas. Estudar Jornalismo ensina que toda escolha de pauta, fonte, imagem, título e enquadramento interfere na percepção pública.

As duas formações se encontram quando penso em quem possui o poder de representar quem.

Durante séculos, povos indígenas e populações negras foram descritos principalmente por pessoas externas a suas experiências. Mesmo quando estavam presentes nas fontes, muitas vezes apareciam filtrados pela voz de missionários, proprietários, autoridades, viajantes, cientistas ou jornalistas.

Hoje, intelectuais, pesquisadores, escritores, comunicadores e lideranças indígenas e negras produzem suas próprias análises e disputam o direito de narrar a realidade. Ouvi-los não é acrescentar uma opinião decorativa a uma história já pronta. É reconhecer autoria intelectual e ampliar os próprios critérios pelos quais o conhecimento é construído.

Essa consciência modifica a jornalista e a historiadora que estou me tornando. Ela me obriga a perguntar quem está falando, quem foi silenciado e quais imagens minhas escolhas ajudam a reforçar.

Também modifica meu trabalho com imagem e estilo. Hoje, não consigo tratar beleza, aparência e presença como campos separados da História. A imagem pessoal é individual, mas os significados atribuídos ao corpo são sociais. Quando ajudo uma mulher a compreender sua imagem, preciso lembrar que ela não chega ao espelho sozinha: chega acompanhada por memórias, padrões, expectativas e experiências de pertencimento ou exclusão.

Conhecer a história não me aprisionou ao passado

Há quem tema que falar sobre colonização, racismo e violência histórica produza ressentimento ou mantenha as pessoas presas ao passado. Minha experiência foi diferente.

O desconhecimento me aprisionava mais.

Quando eu não possuía linguagem para compreender determinadas hierarquias, corria o risco de transformá-las em julgamento contra mim mesma. Quando passei a reconhecer sua construção histórica, conquistei mais liberdade para decidir o que desejo preservar, questionar ou reconstruir.

Conhecer a História não significa viver olhando para trás. Significa compreender por que o presente assumiu esta forma e ampliar nossa capacidade de escolher outros caminhos.

Foi isso que aconteceu comigo. Primeiro, a educação me ajudou a entender que a trajetória da minha família não poderia ser explicada apenas pelo esforço individual. Depois, a História me mostrou que o olhar dirigido ao meu corpo e à minha ancestralidade também foi moldado por relações de poder.

Essas duas compreensões se completam.

Eu venho de uma linhagem que atravessou limitações materiais, raciais e educacionais. Mas venho também de pessoas que produziram conhecimento, cuidado, trabalho, beleza e continuidade, mesmo quando suas experiências não foram registradas nos documentos oficiais.

Hoje, como mulher negra, estudante de História e Jornalismo e profissional da imagem, tenho outras ferramentas para continuar essa travessia: a pesquisa, a escrita, a leitura crítica das imagens e a possibilidade de narrar.

Minha autoestima não nasceu apenas quando aprendi a gostar do que vejo no espelho. Ela se fortaleceu quando compreendi por que tantas mulheres negras foram ensinadas a não gostar do que viam.

Meu orgulho não depende de inventar uma ancestralidade perfeita. Ele nasce do reconhecimento de que eu não comecei em mim e de que a história negra não começa na escravidão.

Conhecer a História fez com que eu deixasse de procurar dignidade fora e passasse a reconhecer a dignidade que sempre esteve inscrita em minha existência.

E talvez seja esta uma das formas mais profundas de liberdade: recuperar o direito de olhar para si com os próprios olhos.


Este artigo é a continuidade de uma reflexão anterior. Se você ainda não leu, comece por Educação, Cultura e Diversidade: o que minha linhagem negra me ensinou sobre desigualdade.


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(1) Comentário

  1. […] Esse reencontro também se relaciona com outra reflexão que estou construindo: Letramento racial: como estudar História transformou a maneira como vejo minha ancestralidade e a … […]

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