Novos Olimpianos

Edgar_Morin

Durante meus estudos em jornalismo, área pela qual estou cada vez mais apaixonada e me deparei com um autor que me fez parar um pouco e observar o mundo com mais atenção: Edgar Morin.

Sabe quando uma ideia começa a explicar várias coisas que vemos todos os dias? Foi exatamente essa sensação.

Morin dedicou grande parte de sua obra a entender a cultura de massa, ou seja, esse universo de imagens, celebridades, filmes, programas de televisão e narrativas que circulam nos meios de comunicação. Vivemos cercados por esse fluxo constante de conteúdos, somos bombardeados por todo tipo de informação e, pouco a pouco, essas imagens acabam influenciando o modo como pensamos, desejamos e até nos comportamos.

Uma das ideias mais interessantes que encontrei nos textos dele foi o conceito dos “novos olimpianos”. Morin pegou emprestada uma imagem da mitologia grega para explicar algo extremamente atual.

No Olimpo viviam os deuses: figuras extraordinárias, admiradas pelos humanos, mas que também tinham sentimentos, conflitos e dramas muito parecidos com os nossos.

Para Morin, algo semelhante acontece com as figuras públicas da cultura de massa. Atores, cantores, atletas, celebridades e hoje, claramente, influenciadores digitais, ocupam esse lugar simbólico.

Observe: eles parecem viver vidas fascinantes, cheias de viagens, glamour e experiências interessantes. Mas, ao mesmo tempo, continuam sendo humanos, com inseguranças, relacionamentos complicados e momentos difíceis. Tenho certeza de que, enquanto lê isso, você já associou essas características a algum famoso que conhece, não é?

É exatamente essa mistura que cria o fascínio.

Morin explica que nos conectamos com essas figuras através de um mecanismo psicológico curioso que ele chama de projeção e identificação.

Primeiro projetamos nelas nossos desejos: aquela viagem incrível que gostaríamos de fazer, aquela casa bonita, aquele estilo de vida aparentemente organizado e leve. Quem nunca?

Depois vem a identificação. Quando percebemos que aquela pessoa também sofre, se frustra, se separa ou aparece em um vídeo dizendo que está ansiosa ou cansada. E é justamente nesse momento que a conexão acontece. Ela parece extraordinária… mas também um pouco parecida conosco.

E aqui entra um ponto curioso que Morin percebeu décadas antes das redes sociais existirem: a cultura de massa tem o poder de transformar o cotidiano em espetáculo.

Algo completamente banal pode virar notícia simplesmente porque envolve uma figura pública.

Pense em manchetes do tipo:
“Cantor X foi visto caminhando no Leblon.”

Se fosse qualquer pessoa, ninguém notaria. Mas quando envolve uma celebridade, vira assunto.

Agora pense nas redes sociais. Quantos conteúdos vemos diariamente mostrando coisas extremamente comuns?

Minha rotina da manhã”,
Arrume-se comigo”,
O que eu comi hoje”,
Um dia na minha vida”.

O que antes era apenas vida cotidiana virou conteúdo.

E aqui confesso uma coisa importante para não parecer aquela pessoa que critica tudo de longe: eu também adoro essas coisas.

Assisto realitys show, gosto de fofocas e até mesmo aquelas mais palacianas, do passado ou do presente, acompanho histórias curiosas da internet e, sim, às vezes também mergulho em algumas boas futilidades. Faz parte da vida contemporânea. E eu, amo!

O próprio Morin não acreditava que a cultura de massa fosse algo puramente negativo, muito pelo contrário, ele dizia que se trata de um fenômeno complexo, cheio de contradições.

A cultura de massa pode simplificar algumas coisas, padronizar outras, mas também democratizou o acesso à informação, ao entretenimento e até à arte. Ela passa a ser mais acessível a classes ditas como minoria.

O problema começa quando esquecemos que aquilo que vemos é, muitas vezes, uma versão cuidadosamente editada da realidade.

Preste atenção, ative seu senso crítico, a cultura de massa não impõe comportamentos de forma direta, como faziam instituições mais tradicionais, como em igrejas, escolas e atédentro dos lares.

Ela funciona de um jeito muito mais sutil: ela te seduz, encanta.

Aos poucos começamos a absorver certos modelos de vida. Felicidade passa a parecer sinônimo de determinadas experiências, determinados produtos, determinados estilos de corpo ou de sucesso.

Quando não percebemos esse processo, começam a surgir comparações constantes, frustrações silenciosas e expectativas irreais sobre o que deveria ser uma vida “normal”.

Quantas vezes você já disse: “minha vida tá um saco!” Depois de assistir pela internet a vida de algum influenciador rico?

Se Morin estivesse analisando o mundo de hoje, provavelmente olharia para as redes sociais e diria que os olimpianos apenas mudaram de palco.

Antes estavam principalmente no cinema e na televisão. Hoje estão no Instagram, no TikTok e no YouTube e por aí vai.

Os influenciadores digitais se tornaram personagens centrais do imaginário contemporâneo. Eles mostram rotinas, estilos de vida, indicam produtos, sugerem comportamentos e acabam influenciando milhares e muitas vezes milhões de pessoas.

Mas o mais interessante é perceber que a lógica continua exatamente a mesma descrita por Morin: um pouco de glamour, um pouco de humanidade.

Essa combinação continua sendo extremamente poderosa.

Agora, vou desabafar… estudar comunicação tem esse efeito curioso. Começamos a enxergar as engrenagens invisíveis da cultura. Aquilo que parecia apenas entretenimento passa a revelar estruturas simbólicas mais profundas.

E talvez a reflexão mais interessante que quero te propor seja esta: hoje não somos apenas espectadores da cultura de massa.

Com as redes sociais, cada perfil, cada postagem e cada fotografia também participa da construção desse grande palco público.

No fundo, talvez todos nós estejamos experimentando um pequeno pedaço desse Olimpo moderno.

E entender como essa dinâmica funciona não significa abandonar o entretenimento ou parar de assistir reality shows (confesso que não pretendo fazer isso). Significa apenas olhar para tudo isso com um pouco mais de consciência e, quem sabe, com um pouco mais de senso crítico também.

Os influenciadores que você segue ampliam sua visão de mundo… ou apenas reforçam os desejos que o mercado quer que você tenha?

Se hoje você deixasse de seguir todos os influenciadores, quais ideias sobre felicidade ainda permaneceriam dentro de você?

Pense nisso.

(6) Comentários

  1. […] depois de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “novos olimpianos”, encontrei outro autor que parece observar o mesmo fenômeno, mas de um ângulo um pouco mais […]

  2. […] depois de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “novos olimpianos”, encontrei outro autor que parece observar o mesmo fenômeno, mas de um ângulo um pouco mais […]

  3. […] de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “novos olimpianos” e mergulhar nas provocações de Guy Debord sobre a Sociedade do Espetáculo, chegou a vez de […]

  4. […] de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “Novos Olimpianos”, refletir sobre a Sociedade do Espetáculo a partir das provocações de Guy Debord e mergulhar […]

  5. […] depois de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “novos olimpianos”, encontrei outro autor que parece observar o mesmo fenômeno, mas de um ângulo um pouco mais […]

  6. […] de conhecer as ideias de Edgar Morin sobre os “Novos Olimpianos”, refletir sobre a Sociedade do Espetáculo a partir das provocações de Guy […]

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