Para mim, ser mulher sempre foi atravessado pela ideia de desigualdade.
Nasci em uma família com três irmãos homens e um pai profundamente machistas.
Desde muito cedo percebi que existiam diferenças silenciosas entre o que se esperava deles e o que se esperava de mim.
Na infância, meu refúgio era o mundo lúdico das bonecas. Lembro que esse universo me acompanhou até os 14 anos. Era um espaço de imaginação, cuidado e fantasia. Talvez ali já existisse uma pequena semente do que eu me tornaria depois: uma mulher que observa, cuida, cria e organiza mundos.
Pouco depois dessa fase, veio outro marco. A sexualização, a perda da virgindade, algo que culturalmente me foi apresentado como uma espécie de passagem: a menina que agora se tornava mulher, “supostamente” pronta para atrair um namorado e ocupar um novo lugar no mundo.
A vida seguiu…
Aos 19 anos conheci meu esposo, com quem estou até hoje. E, a partir dali, minha identidade feminina passou a se expressar através da entrega. Ser mulher, naquele momento da minha vida, significou me dedicar profundamente ao relacionamento, à construção de uma vida em conjunto.
Aos poucos, trabalho e estudos ficaram em segundo plano. Restou a mulher que direcionava sua energia para cuidar da relação, da casa, do cotidiano.
Aos 23 anos me tornei mãe.
Nascia ali uma nova versão de mim: a mulher que cuida. A dedicação virou tempo integral. Eu queria fazer tudo com excelência. Existia dentro de mim uma determinação muito forte de não repetir os erros que vivi na minha própria criação.
Às vezes eu era firme demais.
Outras vezes completamente guiada pela paixão de cuidar, orientar, ensinar.
Afinal, aquele era o meu trabalho em tempo integral.
Hoje meu príncipe tem 18 anos. E posso dizer com orgulho profundo que ele se tornou um menino e agora homem, de uma integridade moral que me emociona.
Missão cumprida.
Ou quase.
Porque quando a maternidade começou a ganhar novos contornos, mais autonomia, mais espaço, surgiu uma pergunta inevitável. E agora?
Se o meu “trabalho de mãe” estava chegando ao fim, quem eu seria?
Qual seria meu caminho profissional?
O que existia além da maternidade?
Essa pergunta começou a surgir quando ele tinha cerca de 14 anos.
Foi nesse momento que iniciei uma caminhada silenciosa, mas profundamente transformadora: o reencontro com a minha própria identidade.
E assim que nasceu a Look Casual Consultoria.
Um projeto que começou como uma ideia, mas rapidamente se tornou algo maior. A Look se transformou no meu espaço de expressão, de criação e de reconstrução.
Eu abri caminhos, construí projetos, me desconstruí inúmeras vezes. Trabalhei, estudei, pesquisei, escrevi, inventei, errei, refiz e reinventei.
Hoje sou muitas mulheres dentro de uma só.
Sou consultora de imagem e estilo, dedicada a ajudar outras mulheres a compreenderem sua própria identidade através da aparência e da comunicação visual.
Autora, escrevendo livros, reflexões e conteúdos que conectam imagem, comportamento, estilo e autoconhecimento.
Empreendedora, construindo uma marca autoral que nasceu da minha própria trajetória de vida.
Hoje também estudante de jornalismo, porque acredito profundamente no poder do conhecimento, da comunicação e da construção de pensamento crítico.
Sou criadora, movida pela curiosidade, pela estética e pelo desejo de compreender o mundo e as pessoas.
Observadora da vida, das pessoas, da cidade, da cultura, da moda e da história que existe por trás das coisas simples.
Mas continuo sendo também aquilo que sempre fui: mãe, esposa, mulher e ser humano em constante transformação.
Hoje tenho 41 anos.
E escrevo este texto a caminho de uma consulta com um cirurgião ginecológico. Existe a possibilidade de retirada de um mioma. Existe até a possibilidade de retirada do útero.
E isso inevitavelmente me faz refletir.
Será que perder o útero significa perder o maior símbolo da feminilidade?
Talvez eu descubra essa resposta em breve.
Talvez eu descubra que a feminilidade mora em um lugar muito mais profundo do que um órgão.
Hoje, para mim, ser mulher é um conjunto complexo de forças.
Ser resiliente.
Ser corajosa.
Ser amorosa.
Ser intensa.
Ser sensível.
Ser respeitosa.
Ser firme quando necessário.
Sou um pouco de tudo isso ao mesmo tempo.
E acredito que preciso ser.
Se eu pudesse deixar um conselho para outra mulher neste Dia da Mulher, seria simples:
Olhe para si mesma.
Observe suas nuances.
Seu jeitinho único de existir no mundo.
Aquilo que te incomoda.
Porque muitas vezes o incômodo é a intuição tentando falar.
Preste atenção nos sinais da sua própria vida.
Às vezes o que parece fim é apenas um convite para começar de novo.
No mais?
Viva.
Viva a vida com coragem, consciência e respeito por quem você está se tornando.
Porque ser mulher, no fim das contas, talvez seja exatamente isso:
um processo contínuo de se reconstruir.