O que fazer no Centro do Rio

Para caminhar por esse cenário, escolhi um look confortável e intencional: t-shirt branca com estampa simbólica, colete preto estruturando a silhueta, short de alfaiataria e bota preta, perfeita para as longas caminhadas e coerente com o ambiente urbano. Uma proposta simples, mas com identidade.

A princípio iríamos ao Theatro Municipal para a visita guiada, mas justamente neste dia ela havia sido cancelada. Pena! Mudança de planos.

Partimos para a Praça XV. Fomos a pé pelas ruas do Centro do Rio: saindo da Cinelândia, seguindo pela Rio Branco, passando pela Primeiro de Março, Largo da Carioca… uma mistura viva de passado e moderno.

A Avenida Rio Branco, aberta no início do século XX para modernizar a cidade, com seus prédios imponentes e fachadas que lembram a Paris tropicalizada.

A Rua Primeiro de Março, uma das mais antigas do Rio, antigo eixo político do Brasil colonial, onde decisões imperiais foram tomadas. O Largo da Carioca, ponto histórico de encontro popular.

Entre prédios antigos e arranha-céus envidraçados, cada construção com sua estética própria, sua linguagem arquitetônica, sua época. O clássico dialogando com o contemporâneo. Pedra, vidro, ferro, concreto. Tudo coexistindo.

Chegamos à Praça XV.

O movimento era intenso. A tradicional Feira de Antiguidades da Praça XV ocupava o espaço com uma diversidade incrível de pessoas, culturas e objetos.

E, de imediato, a sensação era de movimento constante. Barracas alinhadas, conversas cruzadas em diferentes idiomas, objetos antigos espalhados sobre as mesas. A tradicional Feira de Antiguidades da Praça XV ocupava o espaço com uma diversidade impressionante de pessoas, culturas e histórias.

Mas ali, caminhar nunca é apenas caminhar. Cada passo acontece sobre um dos terrenos mais antigos e simbólicos do Rio de Janeiro.

Antes de ser chamada Praça XV de Novembro, aquela região era conhecida como Largo do Carmo ou Largo do Paço, e desde o século XVI já funcionava como uma das portas de entrada da cidade. Durante séculos, era ali que chegavam navios vindos da Europa, comerciantes, autoridades coloniais e viajantes.

O porto ficava praticamente diante da praça, transformando o lugar em um verdadeiro ponto de encontro entre o mundo e a então capital da colônia.

Quando o Rio de Janeiro se tornou capital do vice-reinado português em 1763, a região ganhou ainda mais importância. Igrejas, conventos e edifícios administrativos passaram a cercar a praça, consolidando o local como o coração político e religioso da cidade.

E bem ali, dominando a paisagem, está o Paço Imperial. Construído no século XVIII para servir como residência dos governadores coloniais, o prédio tornou-se um dos centros de poder mais importantes da história brasileira. Foi sede de vice-reis, residência da família real portuguesa após 1808 e espaço de despacho de imperadores.

Foi de uma de suas sacadas que Dom Pedro anunciou o famoso “Dia do Fico”, em 1822, recusando a ordem de voltar a Portugal, um gesto que abriu caminho para a Independência do Brasil. Décadas depois, em uma de suas salas, a princesa Isabel assinaria a Lei Áurea, abolindo oficialmente a escravidão no país.

Ou seja: uma sensação gostosa e estranha ao mesmo tempo. Saber que aquele chão já sustentou decisões que mudaram o destino de um país inteiro. É mesmo de arrepiar!

E hoje sustenta algo muito mais que só uma feira, carrega o contraste, que é quase cinematográfico. É lindo de viver.

Turistas estrangeiros circulando com câmeras nas mãos. Cariocas que passam ali todos os dias sem perceber o peso histórico do lugar, colecionadores atentos examinando moedas antigas, discos de vinil, máquinas fotográficas esquecidas no tempo.

E toda essa estética, também se estende aos looks, existe uma mistura curiosa e gostosa de se apreciar.

Do casual urbano ao vintage improvisado. Do turista de sandália e mochila ao carioca que atravessa o centro com aquela elegância prática de quem aprendeu a viver no calor.

Shorts e camiseta reinaram, então fica a dica!

Eu observava tudo com atenção.

Porque na Praça XV acontece algo curioso, que somente lugares com todas essas camadas de história costumam transmitir, o passado não desapareceu. Ele apenas mudou de forma.

Agora se espalha entre barracas de antiguidades, conversas e objetos que carregam pequenas memórias do mundo.

Roupas, calçados, móveis antigos, moedas em álbuns, louças delicadas, jogos, brinquedos, super-heróis embalados, relíquias inesperadas… uma infinidade de coisas. Cada banca era uma cápsula do tempo.

A feira, de certa forma, ecoa o passado comercial e político da praça, mas agora sob uma lógica popular, democrática, espontânea. É o Rio de hoje.

É o tipo de passeio que vale cada passo. Você se surpreenderá com tantas informações, memórias, comportamento urbano. Tudo acontece ao mesmo tempo. Amei.

Seguindo mais um pouco, chegamos à Rua do Mercado, localizada logo atrás da Praça XV. Aos sábados, o grupo Mal de Raiz costuma se apresentar a partir das 14h, na esquina com a Rua do Ouvidor.

Um sambinha de respeito para animar. Música boa, raiz, carioca. Violão, voz, batuques, ritmo que atravessa o corpo e tempo.

Lugar bem aconchegante e agradável. Paramos em um restaurante para aquela cervejinha bemmm gelada e uma comidinha deliciosa, um mix árabe super recomendado por R$99. Mesa ao ar livre, guarda-sóis coloridos, conversa, gente circulando, gente cariocando.

Talvez o Rio de Janeiro seja exatamente essa mistura. A tão conhecida miscigenação. Muitos turistas estrangeiros em meio ao nosso povo carioca, acima de tudo, brasileiros, resilientes, gente trabalhadora, que aos finais de semana, tenta ao menos se divertir, como se cada encontro, cada samba, cerveja fosse um pequeno alívio para curar dores ancestrais.

Centro do Rio de Janeiro é isso. Passado e presente em um só lugar. Experimente!

(1) Comentário

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